VERMES INQUIETOS

Já não tenho o velho piano
nem o sabor amargo das partituras
Nas minhas mãos 
o bolor gasto
a seiva do tempo
o teu corpo 
não sei
já não tenho os velhos poemas guardados
nem o medo
Deus já não mora aqui neste casebre frio
e os pássaros morreram no inverno passado
só resta o pó
eu
e a velha louca 
suicida
não sei o caminho
perdi-me de ti noutras luas salgadas
e os barcos que partiram para o mar não regressaram
os corpos foram lançados às bestas por viúvas vestidas de negro 
cínico
o vinho adocicado do teu ventre foi violado por mil promessas 
por vermes inquietos 
Já não tenho o velho piano
nem o veneno trágico da tua sombra pairando 
putrefacto
O casebre onde Deus abandonou os filhos
ao sabor do precipício fétido da luz poente do morte agonizante.

2 Outros Mundos:

Liliana disse...

Muito bom! :)

isabel maria disse...

Perda simbolizada no instrumento preferido do poeta. Gostei :)

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