ÁGUAS INERTES

Inebriante
Como as águas do Sena
Surges
Chama imóvel
na penumbra gasta
de um quarto crescente
sem sentido

Estou morto
acabado
mas tu não sabes
e invades-me de fadiga
como as águas inertes do Sena
e eu solúvel
volátil
no teu âmago
no teu vício
no teu medo.

SEM AR

Queimo o reposteiro
insípido
guardado no quarto escuro
sem ar
queimo pedaços de vida
Quadro de memórias
caixa de fantasmas traídos

queimo o medo
em desafios inebriantes
momentos únicos
equívocos

Queimo o ar que respiro
sorvendo cada sopro
da brisa ínfima
memória ilusória
de um deus
pagão, justo
inglório.

SEM ROSTO

Talvez te queira de volta
um dia
entre estilhaços
e sangue

Talvez te procure
entre os vidros
partidos
da memória

talvez te queira de novo
numerada
etiquetada num saco
sem rosto

talvez te abrace
te chore por momentos
porque te perdi
ainda em vida.

A URNA

Solta-me o grito
na labareda intensa do teu medo
perpetua o meu desejo
na fonte erótica do teu corpo
transporta-me eterno na tua urna
supérflua
para sempre
teu.

OS PÁSSAROS

Somos mortais
Pássaros
feridos
na penumbra da noite
Xadrez negro
éter ferido

Somos espectros
no espelho alucinado
dos dias
Poente incerto
corrente
nas lágrimas do tempo

Somos unos
beatificados
Glória eterna
paz às almas perdidas
na memória do medo.


ERÓTICA

Cromático
banho de espuma
intensa,
Tragédia submersa
Penumbra cósmica
no cio

Fio da navalha
Canalha
Problemático
índice erótico
sistemático
orgasmo poético
no frio.